Veja os depoimentos de moradores da Região Metropolitana
MARIANA MONDINI mariana.mondini@diariogaucho.com.br
O táxi não entra lá. A tele-entrega não vai. Há tiroteios frequentes. Marcadas por guerras entre gangues – que, às vezes, duram anos –, tráfico e banditismo, certas áreas da Região Metropolitana ganharam a fama de violentas. Mas, ao lado do ponto do traficante, moram pessoas. Perto da boca de fumo, funciona uma escola. Estas pessoas trabalhadoras enfrentam, além da violência, um inimigo invisível: o preconceito. Constrangidas, cansam de ouvir dos outros, quando falam onde moram: “Lá, só tem bandido”.O Diário Gaúcho mostra, nesta reportagem, as dificuldades, a discriminação e o preconceito sofridos por quem mora em bairros considerados perigosos.- Bairro Bom Jesus – Zona LesteFoi na Vila Pinto, Bairro Bom Jesus, onde mora, que a recicladora Ângela Aparecida Rodrigues, 37 anos, teve a oportunidade de crescer na vida. Ela trabalha há quatro meses no Centro de Educação Ambiental (Cea), como recicladora.– Me acho uma pessoa de sorte. Aqui encontrei o sossego – comemora ela, que tira R$ 140 por quinzena.Durante um ano e meio, Ângela, que tem um currículo extenso como doméstica, auxiliar de serviços gerais e auxiliar de cozinha, passou dificuldades para conseguir emprego.– As pessoas me perguntavam: “Onde tu moras?” E eu respondia que era no Bom Jesus. E respondiam: “Ah, então não dá”. Acham que todo mundo aqui é bandido, traficante – lamenta.Desesperada, Ângela mal tinha condições de alimentar os nove filhos. Na véspera do Natal do ano passado, fez uma faxina em uma casa de família. A patroa aprovou o serviço e combinou que a recicladora poderia voltar de 15 em 15 dias.– Na hora de se sentar comigo para pegar os meus dados, perguntou onde eu morava. Eu respondi, e ela nunca mais me ligou – conta.- Bairro Mathias Velho – CanoasNem falta de dinheiro nem de documentos. Foi a discriminação o empecilho principal para a voluntária Roseli de Lima Amaral, 37 anos, abrir um crediário em uma loja.Há cinco anos, ela preencheu um cadastro para adquirir o cartão do estabelecimento. Na hora de fornecer o endereço de onde mora, veio a surpresa:– Disseram que não podiam fazer, porque no Mathias Velho só tem inadimplente – relata ela, que reside há 21 anos no bairro.Sem saber o que isso significava, Roseli ingenuamente contou a história para a patroa.– Ela me explicou que era quem não pagava. Fiquei constrangida – diz.Não foi a primeira vez que Roseli, que faz trabalho voluntário no bairro, passou por uma situação constrangedora em função da fama do bairro. Uma vez, teve sua ficha policial checada antes de ser aprovada para trabalhar de doméstica.– Se tu estás procurando emprego é porque não faz nada de errado, é honesta. Te rebaixam por causa da vila – lamenta ela, que já chegou a omitir a região exata de onde mora.- Vila Cruzeiro – Bairro CristalHá seis meses, Elisiane da Silva Rosa, 19 anos, dedica suas tardes para distribuir currículos pela Capital. Até então, não chegou nem perto da entrevista. Recentemente, ela e outras 19 mulheres, todas moradoras da Vila Cruzeiro, participaram de um recrutamento para telemarketing. Nenhuma foi escolhida. O motivo ela não sabe exatamente, mas suspeita: preconceito.– Quando falo que moro perto do Postão, eles dizem que não sabem onde é. Até falei uns outros endereços que não a Moab Caldas, mas mesmo assim não adianta – comenta.O marido de Elisiane também está desempregado. Ele era motoboy, mas teve sua moto roubada. A sogra da jovem mantém o casal e o filho de três anos.Elisiane pretende voltar a estudar, mas não sem antes conseguir o sonhado emprego. Enquanto isso, não se cansa de bater de porta em porta.- Vila São Pedro – Bairro PartenonNa Vila São Pedro, a antiga Cachorro Sentado, um jovem, parado em um dos becos de acesso, dá o aviso do tráfico, ao ver o carro da reportagem: jornalista não entra.A líder comunitária, Luisa da Silva, 51 anos, explica que o ingresso só é possível com o consentimento do “cabeça deles”.De acordo com ela, a vila existe há mais de 50 anos e, há pelo menos 15, mudou de nome:– Cachorro Sentado não era muito bem visto. A gente perdia o emprego só de falar.Mesmo assim, Luisa não conseguiu trabalho em um súper, depois que descobriram onde ela morava:– Disseram que não tinha mais vaga.- Bairro Rubem Berta – Zona NorteA dificuldade para manter os fornecedores fez com que Sérgio Mendes, 52 anos, trocasse o armazém pelo bar e lancheria. Dos 23 anos que mora no Rubem Berta, 19 foram dedicados ao comando do mercadinho da Rua Professor Augusto Osvaldo Thiesen.– Ninguém quer mais entregar nada aqui. Tinha que buscar os produtos nos atacados – relata.Uma das duas filhas dele, Andressa Bueno, 23 anos, que procura emprego, também sofre com a reputação do bairro. Na época de colégio, era difícil reunir os colegas em casa para fazer trabalhos.– Geralmente falavam: “Lá não dá para entrar. Toda noite tem um, dois estendidos” – comenta.Sair à noite está fora da rotina de Andressa.– Taxista não entra aqui – lamenta.- Vila Umbu – Alvorada“Lá na Umbu só tem bandido”. É raro encontrar um morador de uma das vilas mais perigosas de Alvorada que não tenha ouvido essa frase. Mãe de cinco filhos, Rejane Terezinha Santos de Ávila, 49 anos, já testemunhou cara torta ao revelar onde mora.– Fui tentar emprego de doméstica e disse que era da Umbu. A mulher fez uma expressão de susto e falou que tinha mais pessoas para entrevistar. Fiquei chateada, porque aqui tem muita gente direita – conta.Rejane relata que muitos têm vergonha de dizer que vivem lá. Ela, não. Tem orgulho da Umbu, onde reside há mais de 20 anos.Mesmo assim, sonha em vender a casa e ir para uma região mais tranquila. O problema é a desvalorização.– Vender e ir para onde, com o valor do negócio? – queixa-se.- Fama de violência influencia os jovensUm dos aspectos negativos de certos bairros preocupa educadores e pais: é a influência dos bandidos sobre os jovens. Enquanto os adultos preferem, muitas vezes, omitir o nome da região em que residem, adolescentes do Bairro Bom Jesus, por exemplo, estufam o peito quando dizem de onde são.Nas escolas próximas ao bairro, eles comentam com naturalidade os crimes que ocorrem na região, na guerra do tráfico.Há alunos, segundo os professores, que se vangloriam de conhecer integrantes de gangues ou, pior de pertencer a uma.- Direitos são iguais para todosDe acordo com o defensor público estadual Eduardo Marengo Rodrigues, os critérios de escolha para crédito e emprego não podem ser subjetivos, como o bairro em que a pessoa mora.– O preconceito não é aceito. Caracteriza-se como dano moral. Todos têm os mesmos direitos – destaca.Segundo Eduardo, a maior dificuldade das pessoas, no entanto, é comprovar a discriminação, principalmente quando ela é verbal.– É importante pegar os dados de testemunhas (nome, RG e endereço) e procurar orientação – ressalta.- Defensoria é gratuitaNo caso de ações trabalhistas, é aconselhável procurar o Ministério do Trabalho, Justiça do Trabalho ou a Defensoria Pública Federal. Quando o assunto é relação de crédito, é indicado buscar um advogado ou a Defensoria Pública Estadual.
Fonte: Diário Gaúcho
Miséria é imoral. Pobreza é imoral. Talvez seja o maior crime moral que uma sociedade possa cometer.
sexta-feira, 16 de outubro de 2009
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
A imagem ao lado representa as inumeras vezes em que a Brigada Militar tem de ficar escoltando a rua da casa da Governadora, por consequência dos protestos de algumas entidades aqui no estado. O problema é que em outros cantos da cidade onde falta policiamento ostensivo, alguns de nossos amigos, familiares, taxístas, pedestres e tantos outros cidadãos, estão sendo mortos, roubados ou estuprados todos os dias. A segurança pública na cidade está muito mal posicionada e não é balela. Isso é palavra de quem anda na rua, e consegue perceber que aqueles brigadianos que estão ali dando segurança e proteção a casa da governadora, em aglum momento estão fazendo falta em rua como aquela em que mataram um taxísta na terça.Lamentável, pois ela poderia e tem o direito de morar no Palácio Piratini.
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